Enfim chegara o grande dia. Um nó na garganta o
acompanhava rumo ao seu destino. Mãos trêmulas, suor frio e uma
ansiedade intensa. A mãe dela já sabia e aprovava o romance dos
dois. O obstáculo agora era o pai, que nada sabia sobre as primeiras
aventuras amorosas da filha.
O futuro do recente namoro dependia daquele
encontro, que àquelas alturas, já se transformara em desafio. O
jovem, contudo, estava seguro. Já havia ensaiado inúmeras vezes
diante do espelho. Tinha repetido exaustivamente o discurso em voz
alta no quarto. Era a primeira vez que enfrentaria um pai de
namorada, também a primeira.
Finalmente chegou. Parou defronte o portão,
consultou o relógio. Pensou em voltar. Viu que estava adiantado.
Respirou fundo e entrou. Afinal, seria uma conversa de homem para
homem, rápida e objetiva.
Ele discorreria sobre suas intenções e ouviria
os conselhos e restrições do velho. Depois, era só partir para os
braços de sua musa.
Foi recebido pela mãe dela. Cordial e
apreensiva, a sogra procurou deixar o visitante a vontade, enquanto
o conduzia ao seu calvário: a sala de estar. Mal havia se acomodado
quando ouviu o ronco do motor invadir a garagem. Era o pai da
garota. O coração disparou no peito dele e a moça para o quarto
dela. Tenso, pediu um copo com água. Chegaram juntos: o copo e o pai
de sua amada.
Ajeitou-se no sofá e murmurou:
- Muito obrigado, Dona Clara. Mas perdi a sede!
Refutou o rapaz. A mulher sorriu compreensiva e o apresentou ao
marido:
- Este é o Fernando, amigo da nossa filha. Ele
veio para falar com você!
Incrédulo e preparado, o homem foi direto ao ponto central da
conversa:
- Muito bem, Fernando. Então você quer falar
comigo? Eu também gostaria de falar com você. Sabe Fernando, minha
filha tem somente dezesseis anos, o que me faz acreditar que ela
ainda não esteja preparada para namorar. Mesmo assim, se ela tivesse
que namorar alguém, o sujeito teria que oferecer um conjunto de
qualidades indispensáveis.
Deveria ser responsável, honesto e trabalhador,
assim como eu. Além do mais, teria que ser um jovem educado,
inteligente, com objetivos claros na vida e, boa pinta, afinal, a
minha filha é uma moça bonita, não acha? Mas antes que me responda,
também é importante que o pretendente não beba, não fume e não tenha
vícios, devendo ser solidário e muito religioso.
O perfil ideal se completaria caso o candidato
fosse politizado, torcesse para o São Paulo e adorasse jogar uma boa
partida de xadrez. Por fim, um genro caseiro, ordeiro, organizado,
com bons modos, sociável e que não trocasse as reuniões em família
por futebol com os amigos, churrascos fictícios e pescarias
duvidosas, se enquadraria no tipo ideal para a minha filha. Bom,
acho que é só.
Mas, parece que você teria algo a me dizer?
- Tenho sim... Que tal se nós começássemos pelas
partidas de xadrez?
.
Certamente, esta frase lhe fez lembrar o comercial
do biscoito tostines. Mas, o que tem haver o comercial do biscoito
tostines com a corrupção em nosso país? O caro leitor dirá que nada! E
eu direi que tem: a dúvida!
Ultimamente, as de denúncias de corrupção nos
âmbitos municipal, estadual e federal tem sido destaque nos
noticiários de tv, jornais e revistas, alcançando um número nunca
antes visto. Em contrapartida, a punição dos envolvidos nos escândalos
de corrupção tem sido tímida, escassa, para não dizer inexistente.
É óbvio que isso não é um problema de hoje, mas
nem por isso não deve ser combatido. E é o que está acontecendo!
Finalmente, o Brasil resolve enfrentar o caos gerado pelos ratos de
gravata. Com o aumento das denúncias o problema da corrupção também se
agigantou.
O problema é que os ratos estão infiltrados em
todos os setores e escalões do poder público, do judiciário e até da
iniciativa privada. É justamente isso, que entrava o processo de
punição dos culpados pelos crimes de corrupção em nosso país.
Enfim, no Brasil a corrupção é combatida com
ratoeira, enquanto os ratos se reproduzem a base da clonagem em série.
Enquanto isso, a dúvida e a roubalheira permanecem e os corruptos
flagrados, seguem ilesos, quem sabe até deliciando tranqüilamente, um
biscoito tostines, enquanto riem da cara do trabalhador.